Stratonicea: «a cidade dos gladiadores» nas colinas da Caria
No vale entre Yatağan e Milas, junto à aldeia moderna de Eskihisar, na província de Muğla, encontram-se as extensas ruínas de Stratonicea (em turco, Stratonikeia) — uma das cidades antigas mais imponentes e menos turísticas da Cária. Trata-se de um monumento único: uma pólis antiga, um povoado medieval, uma aldeia otomana e uma vila mineira abandonada do século XX coexistem aqui literalmente no mesmo plano. Stratonicea é frequentemente chamada de «cidade dos gladiadores» — graças ao grande número de lápides encontradas com imagens de lutadores da arena.
História e origem de Stratonicea
A cidade foi fundada pelo rei selêucida Antíoco I Soter (que reinou entre 281 e 261 a.C.) e recebeu o nome em homenagem à sua esposa — a rainha Stratonice. O povoado surgiu no local da antiga cidade caria de Idria (ou Chrisaoris) e tornou-se imediatamente o centro da chamada Liga de Chrisaoris — uma aliança de cidades carias.
Na época helenística, Stratonicea passou pelas mãos dos selêucidas, de Rodes e dos atálidas de Pérgamo, e em 129 a.C., juntamente com a província da Ásia, integrou-se na República Romana. Em 40 a.C., a cidade resistiu ao cerco dos partos, que apoiavam Labieno; por isso, o imperador Augusto concedeu a Stratonicea privilégios honoríficos. Sob Adriano, a cidade recebeu o nome honorífico de Hadrianópolis, embora o antigo nome tenha permanecido em uso.
Em 365 d.C., um forte terramoto destruiu uma parte significativa das construções. Sobre as ruínas ergueu-se uma pequena igreja bizantina, que funcionou até ao século VII; posteriormente, o local transformou-se num cemitério. Durante as épocas seljúcida e otomana, surgiu aqui a aldeia de Eskihisar («antiga fortaleza»), que existiu até ao final do século XX. Os seus habitantes foram realojados devido à exploração de uma mina de carvão pela vizinha Central Térmica de Yatağan; parte da necrópole de Stratonicea foi destruída pela mina.
Desde 2015, Stratonicea foi incluída na lista preliminar do Património Mundial da UNESCO como um exemplo único de povoamento com várias camadas — cariano, romano, bizantino, seljúcida, otomano e contemporâneo.
Arquitetura e o que ver
Portão norte e rua com colunata
A entrada principal da cidade era o portão norte, com um ninfeu (fonte) adjacente. A partir do portão, começa uma rua pavimentada com duas fileiras de colunas, que conduz ao centro da cidade antiga. Hoje em dia, é fácil orientar-se por ela.
Buleuterion
Um dos bulevterios mais bem preservados da antiga Cária. O edifício retangular do conselho, com bancos de pedra, tinha capacidade para várias centenas de pessoas. Nas paredes internas estão gravados textos de inscrições, entre os quais fragmentos do edito de Diocleciano sobre preços, de 301 d.C., que regulava o custo de bens e serviços em todo o Império Romano.
Ginásio
O enorme ginásio, com 105 por 267 metros, é um dos maiores da Ásia Menor. Conservam-se as fundações, fragmentos de colunatas e inscrições dedicatórias. Os arqueólogos continuam as escavações deste complexo.
Teatro
O teatro helenístico, situado na encosta de uma colina, tinha capacidade para cerca de 10 a 12 mil espectadores. A cavea está bem preservada, sendo visíveis as passagens e parte do edifício da cena. Do teatro, tem-se uma vista panorâmica sobre o resto da cidade e o vale.
Banhos e ágora
No local, são visíveis vestígios de banhos romanos, da ágora pública com as colunas adjacentes e fragmentos de templos. De particular interesse são as casas rurais do período otomano com elementos de madeira entalhada, situadas mesmo no meio das ruínas antigas — uma demonstração vívida da complexidade do local.
Factos e lendas interessantes
- Stratonicea recebeu o nome em homenagem a Stratonice — esposa de Antíoco I, anteriormente esposa de seu pai, Seleuco I. A história do casamento deles tornou-se um clássico tema antigo sobre a paixão, à qual nem mesmo o rei conseguiu resistir.
- Na bouleuterion de Stratonicea, conservou-se uma das cópias mais completas do edito de Diocleciano sobre preços máximos — uma fonte inestimável sobre a economia do Império Romano tardio.
- Na região foram encontradas mais de 30 lápides com imagens de gladiadores, o que é invulgarmente elevado para uma cidade deste tipo. É possível que em Stratonicea existisse uma escola de gladiadores ou que se realizassem jogos regulares no anfiteatro local.
- A aldeia de Eskihisar coexistiu entre as ruínas antigas durante quase mil anos; os seus últimos habitantes só foram realojados na década de 1980. As casas otomanas foram preservadas e fazem hoje parte do circuito turístico.
- Parte do necrópolo de Stratonicea foi destruída durante a expansão da mina de carvão de Yatağan; este é um dos episódios mais trágicos da interação entre o património e a indústria na Turquia do século XX.
Como chegar
Stratonicea situa-se junto à aldeia de Eskihisar, a cerca de 1 km da estrada D330 entre Yatağan e Milas, na província de Muğla. Coordenadas GPS: 37°18′47″N 28°03′51″E. O aeroporto mais próximo é o de Bodrum (BJV, Milas-Bodrum), a cerca de 60 km. Uma alternativa é o de Dalaman (DLM), a cerca de 130 km.
De carro, a partir de Bodrum ou Marmaris, a viagem demora cerca de uma hora pela estrada D330. A partir de Yatağan, há dolmuşes locais para Eskihisar; a viagem demora 10 a 15 minutos. As indicações na estrada são claras — «Stratonikeia Antik Kenti».
É conveniente combinar a visita com Lagina — o santuário de Hécate, a principal deusa de Stratonicea (cerca de 8 km a norte), bem como com as cidades de Mylasa (Milas) e Labraunda, a oeste.
Dicas para o viajante
As melhores épocas são março–maio e outubro–novembro. No verão, o vale da Caria é quente e poeirento (a proximidade com a mina de carvão faz-se sentir em dias ventosos). No inverno, o monumento está aberto, mas é possível que chova.
Reserve pelo menos 2 a 3 horas: o recinto é grande e as distâncias entre as zonas são consideráveis. Use calçado fechado, com sola rígida. Leve água consigo — não há buffets no próprio monumento; os mais próximos ficam em Eskihisar e Yatağan.
Comece o percurso pelo portão norte e siga pela rua com colunas até ao bouleuterion, depois ao ginásio e ao teatro. No caminho de volta, passe pelas casas otomanas — elas criam um contraste impressionante com a parte antiga.
Stratonicea — um local para quem gosta de arqueologia sem multidões. Aqui está quase sempre tranquilo, pode-se passar muito tempo a observar as inscrições e a pensar em como o mesmo metro quadrado de terra viveu dezenas de épocas diferentes. Leve um bloco de notas: nos blocos encontram-se impressionantes inscrições gregas que nem sempre foram fotografadas.